A política energética Brasileira tem sido intransigente na implantação
de usinas hidrelétricas, defendendo tratar-se de energia limpa que colocaria o
Brasil entre os países com matriz energética mais sustentável. Esta é uma
questão polêmica até do ponto de vista técnico, a qual não discutiremos aqui,
mas para quem quiser saber mais, cientistas argumentam que lagos formados por
barragens liberam mais metano, um gás com potencial de efeito estufa cerca de
20 vezes mais potente que o gás carbônico (Fernside, 2004).
Concentro aqui em resumir o histórico recente que tornou o trem das obras
simplesmente inexpugnável, e para isto vou dar apenas dois exemplos, o da UHE
Barra Grande, no mesmo Rio Pelotas, e a de Belo Monte, no Xingu.
Barra Grande ficou conhecida no cenário nacional em razão do escândalo
da omissão de florestas de Araucária nos relatórios ambientais. Percebe-se aqui
o receio dos empreendedores em relação ao impacto ambiental que poderia
representar ameaça ao empreendimento, a ponto de omitirem informações nos
relatórios. Mesmo com este escândalo inicial e várias liminares para
impugnação, a obra saiu.
Recentemente testemunhamos a aprovação da controversa Belo Monte, a qual
os próprios investidores tinham desistido em razão do baixo retorno econômico,
com posterior retomada com insistência e ajuda econômica do Governo Federal. A
controvérsia não tem fim, o governo entende que é prioridade reduzir ou acabar
com a demanda de óleo diesel, alimentada através de carregamentos de óleo por navio
oriundos do Rio de Janeiro, para termoelétricas na Amazônia.
A audiência pública de Belo Monte nada teve de semelhança com a que
ocorreu em Lages na quarta-feira. Na Belo Monte houve agitação e gritaria logo
no início da audiência, tendo seu ponto mais controverso pelo posicionamento
dos representantes do Ministério Público Estadual e Federal, membros da mesa,
Raimundo Moraes e Rodrigo Timóteo que denunciaram as ‘farsas das audiências de
faz-de-conta’ (Siqueira, 2009). Houveram movimentos indígenas, campesinos, e
mobilização internacional que trouxeram o então governador da Califórnia Arnold
Schwarzenegger, o diretor de Avatar James Cameron, e a atriz Sigourney Weaver.
Nada disto teve efeito, e a licença de instalação da usina foi emitida em junho
de 2011.
Trazendo desenvolvimento
No breve histórico acima percebe-se a irreversibilidade das obras. A
audiência pública em Lages trouxe um maciço apoio dos empresários, mas também com
contrapontos de alguns técnicos ambientalistas, setores da agricultura
familiar, e moradores das áreas atingidas. O argumento da energia limpa gerada,
da necessidade de energia, e da geração de riqueza através de empregos e
royalties foram os argumentos para defender a obra. Os royalties, segundo os
expositores, ficariam em torno de um milhão de reais ao ano para a cidade de
Lages, um pouco mais de cem mil por mês. Não haverá incremento do ICMs
diretamente pois o recolhimento não é na fonte de produção, mas haveria um
incremento não quantificado no ICMs geral em razão da maior participação do
município na geração de riqueza.
O maior impacto das barragens se dá pelo fato de sua acumulação, ou
seja, são vários empreendimentos consecutivos ao longo de uma linha de quase
400 km de comprimento no Rio Pelotas. O projeto da usina Paiquerê apenas fori
retomado após um estudo integrado de bacias do Rio Pelotas, cujo resultado não
foi discutido na audiência, mas que talvez deva ser trazido à tona nas
audiências em Bom Jesus e Porto Alegre.
Os empreendedores defendem que os impactos ambientais são pequenos,
desnecessariamente, pois as obras serão erguidas independemente disto. Sejamos
então sinceros, 400 km de alagamentos das áreas mais florestadas do Planalto
Catarinense representam um impacto grande sob qualquer perspectiva.
Mesmo assim, e tendo em vista a imposição deste modelo de
desenvolvimento, ainda temos a possibilidade de discutir os problemas trazidos
durante a audiência pública em uma perspectiva mais ampla e esclarecedora.
Sustentabilidade além das
barragens
A minha posição é a de olhar para as soluções. Na audiência em Lages
foram problematizadas questões que vão além da barragem, como a qualidade de
vida dos agricultores nos entornos das áreas atingidas, a submersão de
monumentos culturais históricos dos tropeiros, e a sustentabilidade ambiental.
A sustentabilidade socioambiental da região passa, a meu ver, pela
inclusão da área rural no modelo urbano de desenvolvimento, mas sem as suas
mazelas. Precisamos reconhecer regionalmente que temos um instrumento
ambiental-cultural muito forte que é o tradicionalismo, o qual pode integrar as
duas vertentes para proporcionar uma alternativa de desenvolvimento. Qualquer
um que tenha parado para escutar música tradicionalista percebe na letra as
homenagens ao estilo de vida próprio e aos atributos naturais. Alguns dos
monumentos dos tropeiros e tradicionalistas podem acabar em museus e em
saudosismo se não houver ação. Presevamos apenas o que usufruímos, não sendo
diferente o caso das paisagens da Coxilha Rica e do Rio Pelotas. A experiência
mostra que a natureza precisa ser valorizada (socialmente) de alguma forma para
não desaparecer. Alguns programas de crédito de carbono dão conta de uma
parcela das soluções, mas há outras alternativas como o lazer. A Coxilha Rica é
sub-utilizada, queremos preservar mas não usufruímos os suficiente.
O lazer nas cidades e praias se dá geralmente em áreas públicas, o que
falta na Coxilha Rica e na região como um todo. O tropeirismo não deve ficar
apenas nos museus, nas memórias de poucos, em fazendas rurais de alto preço, ou
restrito a CTGs e a calvagadas ocasionais. Uma via pública equestre ligando as
cidades serranas ao caminho de tropas traria desenvolvimento da mesma forma que
as praias atraem os turistas e trazem desenvolvimento às cidades litorâneas.
Precisamos abrir o leque de opções para usufruto comum da cultura
tradicionalista, das paisagens naturais, e dos passeios equestres. Sem
valorização de um público em número expressivo não haverá preservação, e os
impactos decorrentes serão cumulativos aos das hidrelétricas. Mas o equilíbrio
é delicado, as estradas e principalmente o asfalto trazem a ocupação
desordenada. Melhoramos o acesso aos produtores rurais, mas o façamos com estradas
de pedra ou lajota, para construir uma estrada turística. Incentivamos a
construção de pousadas, alojamentos, estábulos ao longo do caminho, mas com
controle sanitário e arquitetônico/paisagístico. Ofereceremos assim uma opção
para as pessoas serem engajadas pela natureza e pela cultura local, criando um
modelo próprio de desenvolvimento regional. Tudo isto parecia estar entalado na
garganta das pessoas durante a audiência, em seus anseios para que o nosso
mundinho regional desenvolva prezando nossos atributos mais caros, mas infelizmente
são questões que os empreendores de Paiquerê não podem resolver. Nós, em
conjunto, podemos.
Referências
Fearnside, P.M. 2004.
Emissões de gases de efeito estufa por represas hidrelétricas: controvérsias
fornecem um trampolim para repensar uma fonte de energia supostamente ‘limpa’.
Coordenação de Pesquisas em Ecologia, Instituto Nacional de Pesquisas da
Amazônia.
Siqueira, R. 2009.
Belo Monte de farsas
http://www.remaatlantico.org/Members/suassuna/artigos/belo-monte-de-farsas-artigo-de-ruben-siqueira
(acesso em 22 de março de 2012)
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