Por Carla dias em Crônica do Dia
Você sabe que a pior escolha é esperar para ser a melhor pessoa possível
em um futuro que julga próximo. Diferente das contas dos carnês, com
parcelas com vencimento em 5 de agosto, 5 de setembro, 5 de outubro, 5
de novembro, até 5 de dezembro de dois anos adiante do vigente, entende
que depois de quitado o sonho se transforma em lembrança para ser
desfiada em dia de jantar em família.
E que flores em vasos são impacientes e partem adiantado, e isso em nada tem a ver com o fim da primavera.
Compreende a solidão dos almoços em dia de trabalho, quando seu olhar
reconhece as feições dos estranhos mastigando comida e se alimentando de
urgências: pegar a roupa na lavanderia, escrever para o diretor, comprar laranja lima, pedir o divórcio, colocar o analgésico na bolsa.
E sempre alguma urgência se destaca, roubando-lhe a atenção entre uma
garfada e outra, às vezes distraindo tanto que a sua comida acaba no
prato no final da hora do almoço.
Como aquela urgência reconhecida no homem de cabelos brancos que só, que
se curvou sobre a bandeja e se fez de interessado pela comida, mas que
na verdade, enquanto esparramava o arroz pelo prato, chorava
copiosamente. A sua vontade foi sentar-se com ele, perguntar por que, o
que e como, agir como o ouvidor da confissão da tristeza dele.
Porém, você também é sabedor de que não há como estancar as dores de
outra pessoa. Não de pessoas que tiram a hora de almoço para visitar
suas emoções, e então voltam ao modo trabalhador cinco minutos antes de
bater o cartão.
Você sabe que caminhar pela cidade faz bem à saúde, ainda que a
qualidade do ar não esteja lá essas coisas, de acordo com o telejornal.
Só que é lugar fora de quatro paredes, tem sombra e ao sol você quara
seus pensamentos, aquece a rotina. Porque está fora de quatro paredes,
diferente do quarto, quando você deita a cabeça no travesseiro e ela
acha que é hora de trabalhar, transformando a sua noite em uma orgia de
ilusões e quês de realidade.
Entende que amar não é para todos, ser amado é para poucos, apesar de os
adeptos do positivismo exagerado relutarem em aceitar o fato. Por isso
se permite ser amado sempre que possível, na forma mais ampla do amor,
recebendo até mesmo os amores instantâneos, que são aqueles que algumas
pessoas sentem por você depois de conhecê-lo em uma festa, ou durante o
jantar que deveria ser somente para amigos íntimos, mas recebe
estranhos.
E também durante as canções. Permite-se ser amado por melodias e poesia,
abraçando o significado de algumas para traduzir alguns dos seus
próprios momentos.
É que você sabe que é pessoa, e que nessa condição, experimentará de
tudo um pouco, e que nem sempre será no futuro próximo. E canções cabem
até mesmo no daqui a pouco. Mesmo as velhas canções sobre um sentimento
novo, quase inédito, digno de ser urgência para quem conhece um bom
repertório para abrandamentos.

