quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Maçã: Safra e mercado 2010

A colheita de maçã 2010 certamente marcou na história e deixou sinais de alerta aos produtores em conseqüência do excesso de chuvas e dificuldade para contratar a mão-de-obra safrista.O resultado não podia ser outro - maçã colhida fora do ponto para armazenagem, coloração precária para os clones mais antigos e excesso de indústria remetida para as câmaras frias.Foi uma grande safra, situando-se ao redor de 1,3 milhão de toneladas, número muito elevado considerando-se um mercado internacional menos receptivo pela crise, qualidade menor e uma taxa cambial que penaliza o preço dos lotes exportados.

Os preços do mercado interno se mantiveram em patamar abaixo do custo de produção enquanto a colheita se estendia em maio e junho adentro.

Lotes que deveriam ser destinados diretamente à indústria provocaram um tumulto na logística de armazenagem e, o pior, sinalizamos para o mercado uma política de “aproveitamento” de fruta que desestrutura os padrões de qualidade consagrados e permite ao comprador forçar preços de maçã de nichos nobres para níveis aviltantes porque o mercado está inundado de tipo especial ( Cat. 1 e 2 mix), comercial de 4ª categoria e sacolões.

O negócio entre parceiros importantes ficou desequilibrado e fragilizado do lado do produtor e perdemos o controle por se tratar de produto perecível. Qualquer mercado com oferta muito acima do nível de consumo desequilibra o nível de forças entre os agentes.

Parece que o setor precisa de uma intervenção da natureza para equilibrar as forças do mercado.
A colheita 2011 sinaliza uma produção menor, difícil imaginar se a melhoria de preço poderá absorver as perdas deste ano.

Com certeza o nível de endividamento poderá afetar o equilíbrio financeiro por duas a três temporadas, principalmente pelos eventos naturais de geadas tardias e granizos.
Algumas ações merecem ser trabalhadas com mais empenho e de maneira coletiva pelo setor:
1 . A pulverização do setor em uma centena de marcas e classificações fora dos padrões estabelecidos por normas oficiais cria uma confusão de mercado que favorece o distribuidor, com péssimos resultados para o produtor e para o consumidor.
A ação de organizar nosso setor que já está apresentando um bom nível de adesão precisa abranger um percentual mais elevado.
Trata-se de repor um equilíbrio de forças para administrar resultados compatíveis aos elevados investimentos com participação significativa de bancos oficiais, tendo em vista tratar-se de segmento importante na geração de empregos através de empresas e pequenos e médios produtores integrados.

2. Fazer um recadastramento de todos os pomares implantados, identificando idade, clones, porta-enxertos, sistema de condução para avaliarmos o potencial de produção e expectativa de classificação das safras futuras.Passou o tempo que compradores fixavam o preço ao produtor na colheita de forma empírica olhando para a árvore ou para o bin. Também, desmistificou-se a habilidade destes profissionais com seu olho biônico na avaliação da matéria-prima com sua classificação final e preço potencial de mercado.
O mercado permitia porque a oferta era menor, ou através de artifícios de classificação ou, ainda, alegando perdas nas câmaras, pacotes econômicos e o preço fechado não era tão real como se imaginava.Hoje, o preço ao produtor é formado decompondo-se em valores por categorias de acordo com as normas e principalmente pela pressão dos distribuidores que precisam atender as demandas de seus nichos.A partir deste novo conceito torna-se importante firmar nossas estratégias nos clones modernos com 90% de coloração vermelha ou pink que resultam em mais exportação, Cat. 1 e 2 e por conseqüência melhores preços.Não podemos esquecer que estes clones vendem mais que os tradicionais.
Das evidências, podemos concluir:
- Dar maior velocidade na erradicação dos clones tradicionais;
- Informar às Associações as áreas implantadas,erradicadas e, principalmente, as produções anuais, e
- identificar o novo desenho do mercado para evitar novos níveis de sobreoferta.

3. Iniciar negociações com órgãos governamentais e seguradoras para a revisão da Portaria de Classificação e de indenização da maçã granizada, principalmente para a Cat. 3, cujos critérios foram estabelecidos há mais de 10 anos, quando o mercado era comprador.
Hoje, na avaliação do nível de dano se atribui certo valor como fruta de mesa para a Cat. 3, mas o mercado não aceita e este lote acaba sendo destinado para a indústria com remuneração de 10% da maçã de qualidade.Seguro adequado, disponibilizando verbas de subsídio no devido tempo, é uma política governamental para garantia de renda do produtor.

4. Exigir do Governo um controle severo contra a entrada de maçãs que não cumpram com as exigências de classificação, sanidade e que tenham subsídios na formação de preços.
Devemos ser claros e firmes na defesa de nossos interesses, cobrando isonomia tributária/trabalhista, cambial e de juros.

Desníveis provocados por políticas macroeconômicas deverão ser tratados através de mecanismos compensatórios que poderão resultar em desonerações tributárias, cotas ou proibição de entrada em períodos críticos.Nas relações comerciais com outros paises existe um mecanismo clássico de transferência de problemas.

Se o mercado destino dos pepinos não reclamar, continuaremos receptadores de produtos de baixa qualidade e o país de origem continuará com seus problemas e uma vantagem, tem gente que engole.Literalmente, vale para certas categorias de vinhos, sucos e maçãs.
Finalizando, queremos competir em igualdade de condições e não queremos, mais tarde, soluções do tipo refinanciamento de dívidas impagáveis como favor.

Solucionar no devido tempo os problemas existentes e os em vir a ser é a estratégia para um desenvolvimento seguro com o fortalecimento do setor privado que é o grande gerador de emprego, renda e arrecadador de 37% de impostos embutidos no PIB brasileiro.

José Sozo
Vice-Presidente de Promoções - AGAPOMI

Fonte: http://www.agapomi.com.br/jornal.php?noticia=154

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